sábado, 14 de março de 2020

Molière, as pancadas e as histórias do teatro


Publicado originalmente no site JORNAL DE TEATRO, em 03 de dezembro de 2013

Molière, as pancadas e as histórias do teatro

Por Adoniran Peres

 Dez minutos antes de começar o espetáculo toca o primeiro sinal. Cinco minutos depois, toca o segundo. Quando toca o terceiro, aí, sim, as luzes se apagam, abrem-se as cortinas e o silêncio, assim sugerido, dá espaço à viagem, na qual tudo é possível: o público mostra-se visivelmente preparado para embarcar, a história é contada, a mensagem é lançada  e os artistas, consequentemente, já estão concentrados para encarnar os personagens. Por mais estranho que possa parecer, tudo tem uma origem e esses sinais têm uma história.

No teatro vicentino, os sinais eram manifestados através de gritos. Já  no século XVII, na França, criado por Molière, foi batizado de “as pancadas”. Naquela época, a plateia francesa era barulhenta e agitada, as peças tinham uma cena inicial para acalmar o público e impor o silêncio. Com o mesmo objetivo, Molière criou as suas três pancadas, usadas até hoje para avisar à plateia que o espetáculo vai começar.

Segundo Pablo Moreira, coordenador do curso de artes cênicas da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o número das pancadas de Molière eram várias e não existia uma formalidade na quantidade, como hoje, com as campainhas. “Primeiro ele tentava acalmar o público com várias pancadas com as batutas ou um pedaço de madeira no chão. Depois, quando a plateia já estava calma, vinham as três pancadas em uma mesma sequência”, revela.

Segundo Edélcio Mostaço, professor de História da Arte, da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), entre as pancadas e o sinal há uma longa evolução da prática no teatro. Todavia, o objetivo é o mesmo: avisar que a peça irá começar. “Se alguém vai ao banheiro ou comprar balas, por exemplo, sabe que tem um tempo determinado para voltar. Considere que esses sinais surgiram em uma época na qual os teatros eram imensos e antigos, a plateia ficava circulando pelos corredores antes do início da peça e ir de um lugar a outro era longe. Por outro lado, os espetáculos reuniam dezenas de artistas, que ficavam dispersos nos camarins. Os sinais eram operados pelo contrarregra, como convenção para a reunião geral de artistas (no palco) e público (sentados na plateia) para abrir o pano”, explica Edélcio.

O professor da Udesc acrescenta, ainda, que as famosas “pancadas de Molière” surgiram em função das especificidades do fazer teatral no período. As apresentações eram realizadas no Palácio de Versalhes, residência do rei Luiz XIV e sua corte, em um ambiente no qual não havia divisão rígida entre palco e plateia. Era apenas um amplo salão do palácio, não uma sala de espetáculos. Como a corte era ruidosa e não havia iluminação elétrica naquela época, o modo encontrado de marcar o início do espetáculo foi através de ruídos – pancadas no chão – para fazer silêncio.

Segundo o professor da Udesc, esse hábito se disseminou nas demais cortes de toda a Europa. Após o surgimento dos teatros com iluminação elétrica, os momentos anteriores ao espetáculo eram marcados com uma campainha (sinais para as pessoas seguirem para os camarotes e frisas) e com o escurecimento da sala. Pablo Moreira acrescenta que, naquela época, era comum fazer as refeições nos teatros. “Além de ser o ponto de encontro da população, o que causava uma grande bagunça”, diz.

Pancadas

Hoje, na maioria dos textos sobre teatro disponíveis em sites e blogs na internet, é possível se constatar que a palavra campainha é trocada pela antiga “Pancadas de Molière”. Um grupo de teatro chamava a atenção pelo nome – As Pancadas de Molière não dói (sic), uma mistura do funk carioca “Um Tapinha não Dói” –  com as históricas pancadas. Atualmente, o grupo usa o nome Pancadas. Segundo Moreira, a palavra, quando trocada, pode ser usada e soar como ironia, dependendo do tom e da circunstância que o autor utiliza. “No próprio espetáculo, hoje podemos interpretar as campainhas como uma metáfora. O barulho da campainha ainda faz a aproximação entre os artistas e a plateia. Quer dizer: atenção! Pode ser entendida como uma maneira de que é a hora abrir a cabeça para o início da apresentação ou qualquer questão que possa imaginar”, explica Moreira.

Molière e o teatro na França

O primeiro teatro público francês surgiu em 1548, mas apenas no século XVII surgiram os mais célebres autores franceses dos tempos modernos: Corneille e Racine, que escreveram tragédias, e Molière, que foi o criador de adoráveis comédias.  Molière, com as pancadas, escreveu uma parte da história do teatro, mas o capítulo mais importante de sua biografia ficou por conta da Comédie Française, primeira companhia pública oficial de teatro do mundo, fundada por ele, em 1680, e abençoada – ou patrocinada – por Luiz XIV, no século XVII. “Essa sede está em funcionamento até hoje, ao lado do Palácio Real. As peças dos grandes autores franceses, como de Corneille, Racine e Molière ainda são encenadas”, explica o professor da PUC-SP. Entre as obras de Molière estão “As Preciosas Ridículas”, representada em 1659, “O Burguês Fidalgo”, de 1670, e “O doente Imaginário”, de 1673.

Do povo

Segundo Moreira, Molière escreveu uma nova forma de fazer teatro e, mesmo criando temas dentro da peça que contrariavam o governo da majestade da França, ainda assim conseguiu o respeito de Luiz XIV. “Molière era um grande autor de comédia popular. Além de levar as suas peças para a população, se apresentava também com exclusividade para o rei em seu palácio. Quando a peça era apresentada aberta para população, Luís XIV chegava a subir até ao palco para participar. “Ele fazia também duras críticas à aristocracia e, mesmo assim, era muito respeitado por Luiz XIV”, destaca.

O professor da PUC-SP explica ainda que, contrariando as formalidades das formas criadas por Aristóteles na execução de uma peça, Molière trouxe novas características para as encenações, na qual não se respeitava o tempo nem a estrutura de uma peça. Ele fazia comédias para o povo e retratava o povo com temas da vida cotidiana, em que os contrários se confrontam.

“Parecia que tinha um pé onde estavam os menos favorecidos financeiramente, que é da onde veio, e outro na aristocracia. Molière sabia lidar com essas questões e ainda conseguia ser respeitado. Ele inventou de forma inteligente uma nova maneira de fazer teatro e conseguia fazer isso contrariando o poder, sem ser censurado”.

Segundo Moreira, Molière usava muito da improvisação, elaborava cenas de aproximação dos artistas com a plateia, permitia uma fala mais coloquial, fazia uma comunicação crítica com brincadeiras, contextualizando as questões sociais e, às vezes, até criticava os próprios atores durante a peça. Além de tudo isso, ele ainda inovou, ao colocar mulheres para encenar, algo que até então não acontecia”, finaliza.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldeteatro.com.br

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Atriz Ruth de Souza morre no Rio aos 98 anos

 Ruth de Souza na série 'Malu mulher', em 1980 
 Foto: TV Globo

Ruth de Souza emocionada durante homenagem no 
desfile da Acadêmicos de Santa Cruz, no carnaval de 2019,
 no Rio (Foto: Marcos Serra Lima/G1)

Publicado originalmente no site G1, em 28/07/2019

Atriz Ruth de Souza morre no Rio aos 98 anos

Ela foi a primeira atriz negra a atuar no Theatro Municipal e a primeira brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema. Ruth de Souza estava internada com pneumonia.

Por G1 Rio

Morreu na manhã deste domingo (28) a atriz Ruth de Souza, de 98 anos. Ela estava internada desde o começo da semana no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Copa D'Or, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, vítima de uma pneumonia. A causa da morte não foi informada pelo hospital.

Com mais de 70 anos dedicados à dramaturgia, Ruth de Souza é ícone de várias gerações de atores. Ela foi pioneira ao longo de sua carreira: foi a primeira atriz negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio e a construir carreira na dramaturgia. Foi também a primeira brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema – no Festival de Veneza de 1954.

O velório da atriz será nesta segunda-feira (29) no Theatro Municipal a partir das 8h. Na primeira parte, o velório será fechado para a família até 10h, segundo informações da assessoria do Theatro Em seguida, será aberto ao público até o meio-dia.

O Crematório e Cemitério da Penitência informou que o sepultamento da atriz acontecerá às 16h30 no local, em cerimônia reservada à família e amigos próximos.

Trajetória

Ruth de Souza Pinto nasceu em 12 de maio de 1921, no bairro do Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Passou a infância com a família em Porto do Marinho (MG) e, após a morte do pai, voltou ao Rio com a mãe. Viveram em uma vila de lavadeiras e jardineiras em Copacabana.

Interessada em teatro, procurou e se uniu ao Teatro Experimental do Negro, grupo fundado por Abdias Nascimento e Agnaldo Camargo. Foi com o grupo que, em 8 de maio de 1945, atuou pela primeira vez no Theatro Municipal, que até então só tinha recebido atrizes brancas e ajudou a abrir as portas para artistas negras no Brasil. A peça encenada foi "O Imperador Jones", de Eugene O’Neil.

Midori de Souza, sobrinha-neta de Ruth de Souza, falou da importância da tia para a dramaturgia.

"Ela merece essa homenagem da família, e os fãs também merecem, né, dar esse adeus para ela, porque a gente sabe que tem muita gente que gosta dela (...) Minha tia foi uma pessoa muito importante para a família toda. Uma pessoa de muita garra, uma pessoa que sempre deu conselhos, presente demais na família. Era tipo a matriarca da família"

Mais de 20 novelas

Na televisão, foi uma das pioneiras. Passou pela TV Tupi, pela Record, TV Excelsior e, em 1968, Ruth de Souza foi contratada pela Globo para atuar na novela "Passo dos ventos", onde interpretou a mãe de santo Tuiá, uma mulher sábia cujos antepassados eram escravos, no Haiti.

Seu último trabalho foi na minissérie "Se eu fechar os olhos agora", que foi ao ar este ano, na Globo. Na história recriada por Ricardo Linhares a partir do romance original de Edney Silvestre, ela viveu Madalena. Idosa e abandonada, a personagem era "adotada" pelos meninos Paulo Roberto (João Gabriel D’Aleluia) e Eduardo (Xande Valois) antes de ser assassinada de forma brutal e misteriosa.

Filha de um lavrador e de uma lavadeira, desde criança Ruth sonhava em ser atriz. “Eu era apaixonada por cinema. Queria ser atriz, mas naquela época não tinha atores negros, e muita gente ria de mim: ‘Imagina, ela quer ser artista! Não tem artista preto’. Eu ficava meio chateada, mas sabia que ia fazer; como, não sabia", declarou a atriz no site Memória Globo.

Como uma das pioneiras da TV brasileira, a atriz participou de programas de variedades e musicais no início das transmissões da TV Tupi, até adaptar para a televisão, com Haroldo Costa, a peça "O filho pródigo", que havia encenado no Teatro Experimental do Negro. A primeira novela foi "A deusa vencida" (1965), de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior.

Na Globo, a atriz atuou em mais de 20 novelas. Entre elas: "A cabana do Pai Tomás", "Pigmalião 70", "Os ossos do barão", "O rebu", "Duas vidas" e "O clone".

Em "Sinhá Moça" Ruth fez uma dupla inesquecível com Grande Otelo. Também atuou em seriados como "Memorial de Maria Moura" e "Na Forma da Lei".

Carreira no cinema

No cinema, Ruth participou de mais de 30 filmes, incluindo a versão para a telona de "Sinhá Moça", de Tom Payne. O longa levou Ruth a concorrer ao prêmio de melhor atriz do Festival de Veneza de 1954.

Em entrevista ao Memória Globo, ela lembra que, por pouco, não levou o prêmio e ainda superou atrizes consagradas como Katherine Hepburn e a Michèle Morgan – Lili Palmer foi a vencedora.

“Era muito importante o festival, Veneza, o festival de Veneza naquela época acho que era mais importante que o de Cannes, era muito importante. E aí, quando veio a notícia de que Lili Palmer tinha ganho o prêmio e eu tinha perdido por dois votos. Dois votos... Então, a Katherine Hepburn e a Michèle Morgan ficaram para trás, ficaram em quarto lugar, não sei.. Para mim, foi como se eu tivesse ganho o prêmio, foi muito importante para a minha carreira, inclusive", contou Ruth.

A atriz esteve também no clássico "O assalto ao trem pagador" (1962), de Roberto Farias, e "As filhas do vento", de Joel Zito Araújo, com o qual foi premiada no Festival de Gramado de 2004.

Ruth de Souza era grande admiradora do cinema por entender que era onde o artista negro tinha mais oportunidades.

"O cinema sempre deu mais oportunidade para o negro, desde o Grande Otelo. Eu tive sorte na continuidade de trabalho, tanto no teatro quanto na televisão. Sempre tive trabalho, mas são poucos os negros que têm. Isso foi benção de Deus”, declarou.

Repercussão

A morte da atriz Ruth de Souza, aos 98 anos, foi lamentada por artistas, amigos, admiradores e personalidades...

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com

sábado, 4 de maio de 2019

Diretor de teatro Antunes Filho morre aos 89 anos em São Paulo

Antunes Filho em foto de agosto de 2018 
Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo

Publicado originalmente no site G1, em 2 de maio de 2019

Diretor de teatro Antunes Filho morre aos 89 anos em São Paulo

Um dos principais nomes do teatro brasileiro, ele criou o Centro de Pequisa Teatral (CPT) e influenciou várias gerações de artistas. O diretor estava com câncer em estágio avançado.

Por G1, GloboNews e TV Globo

Antunes Filho, grande nome do teatro nacional, morre aos 89 anos em São Paulo

Morreu na noite desta quinta-feira (2) o diretor de teatro José Alves Antunes Filho, mais conhecido como Antunes Filho, considerado pela crítica especializada um dos principais nomes do teatro brasileiro.

"Nesta noite do dia 2 de maio o Sesc, o teatro e todo Brasil estão mais tristes. Lamentamos o falecimento do diretor de teatro Antunes Filho, aos 89 anos, no Hospital Sírio-Libanês", informou o Sesc SP no Facebook.

Antunes Filho foi internado no Hospital Sírio-Libanês, região central de São Paulo, no último dia 22, após sentir um mal-estar. Depois de passar por exames, o diretor descobriu estar com câncer de pulmão em estágio avançado...  

Continue lendo, clicando no link > https://glo.bo/2WpNjka

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Bibi Ferreira, diva dos musicais brasileiros, morre aos 96 anos

Bibi Ferreira durante entrevista com Roberto D'Avila 
Foto: Tata Barreto/Globo

Bibi Ferreira com o pai, Procópio Ferreira, em 1978
Foto: TV Globo

Publicado originalmente no site G1 Rio, em 13/02/2019

Bibi Ferreira, diva dos musicais brasileiros, morre aos 96 anos

Atriz, diretora, cantora, compositora e apresentadora morreu em seu apartamento, no Rio. Filha de Procópio Ferreira, artista brilhou por décadas no teatro e nas telas.

Por G1 Rio

A atriz e cantora Bibi Ferreira, diva dos musicais brasileiros, morreu nesta quarta-feira (13), aos 96 anos, no Rio. Também apresentadora, diretora e compositora, ela foi um dos maiores fenômenos artísticos do país.

Segundo Tina Ferreira, filha única de Bibi, a artista morreu no início da tarde em seu apartamento no Flamengo, Zona Sul do Rio. A atriz acordou e a enfermeira que a acompanhava percebeu que o batimento cardíaco estava baixo e, por isso, chamou um médico. Tina acredita que a mãe morreu dormindo.

"Ela amanheceu normal, acordou tomou seu café da manhã e tudo. Depois ela só se queixou que estava se sentindo um pouco com falta de ar. Então como tem enfermeira, tem tudo, tiramos a pressão, o pulso estava fraco. Imediatamente chamamos o Pró-Cardíaco. Eles vieram muito rápido, muito rápido mesmo, ambulância, médico, tudo, mas quando chegaram ela já tinha partido. Ela morreu dormindo, tranquila", explicou Tina.

A Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa informou que o velório vai ser no Theatro Municipal do Rio. A cerimônia, aberta ao público, ocorre de 10h às 15h. Depois, o corpo de Bibi deve ser cremado.

Berço artístico

Bibi Ferreira teve uma carreira intensa de 77 anos de teatro e música

Abigail Izquierdo Ferreira nasceu em 1º de julho de 1922. Filha de um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil, o ator Procópio Ferreira (1889-1979), e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi – apelido que ganhou ainda na infância – estreou nos palcos com pouco mais de 20 dias de vida.

Em cena, ela apareceu no colo da madrinha, Abigail Maia, em encenação de "Manhãs de sol", de Oduvaldo Vianna (1892-1972).

Artista multimídia, Bibi ao longo da carreira fez filmes, apresentou programas de TV, gravou discos e dirigiu shows. Tudo sem nunca abandonar o teatro, uma grande paixão.

Também foi enredo da Viradouro no Carnaval do Rio em 2003. Recentemente, teve a vida e obra contadas no espetáculo "Bibi, uma vida em musical", escrito por Artur Xexéo e Luanna Guimarães, com direção de Tadeu Aguiar. Na montagem, a protagonista foi interpretada por Amanda Costa.

Em março de 2018, já aos 95 anos, Bibi foi assistir a uma apresentação do musical, então em cartaz em um teatro no Rio e fez o público se emocionar ao chorar cantando, da plateia e sem microfone, uma música de Edith Piaf (1915-1963).

A própria Bibi interpretou a cantora francesa com maestria em um musical de enorme sucesso no Brasil e em Portugal. O trabalho minucioso foi considerado tão perfeito que mesmo pessoas que conheceram Piaf se espantaram com o nível de semelhança.

Com o espetáculo, Bibi conquistou os principais prêmios do teatro nacional, como Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Governador do Estado e Pirandello. Foram apenas alguns dos muitos prêmios que colecionou ao longo das décadas de carreira.

Em 1960, Bibi inaugurou a TV Excelsior com o programa ao vivo "Brasil 60", que levou à TV os maiores nomes do teatro. A atração mudaria de nome nos anos seguintes ("Brasil 61", depois "Brasil 62" e assim por diante).

Na mesma emissora, também apresentou o programa "Bibi sempre aos domingos". Em 1968, estrelou o musical "Bibi ao vivo" – com direção de Eduardo Sidney, o programa era transmitido do auditório da Urca.

Musicais

Ainda nos anos 1960, Bibi estrelou outros dois dos musicais mais marcantes de sua carreira. O primeiro foi "Minha querida dama" ("My fair lady"), de Frederich Loewe e Alan Jay Lerner, adaptação de "Pigmaleão", de George Bernard Shaw. No espetáculo, atuou ao lado de Paulo Autran (1922-2007) e Jaime Costa (1897-1967).

O outro trabalho marcante foi "Alô, Dolly!" (Hello, Dolly!), versão da obra "The matcmaker", de Thornton Wilder, com Hilton Prado e Lísia Demoro.

Já na década de 1970, Bibi foi o principal nome de "O homem de La Mancha", musical de Dale Wasserman dirigido por Flávio Rangel e com letras adaptadas para o português por Chico Buarque.

Marca no Canecão

A artista deixou ainda seu nome marcado na casa de shows Canecão, no Rio, ao dirigir o espetáculo "Brasileiro, profissão esperança", de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), produção inspirada na obra do compositor Antonio Maria.

No início, o show foi concebido em escala menor para ser apresentado em boates, com Ítalo Rossi e Maria Bethânia nos papéis centrais. Mas depois o musical foi reformulado e ampliado. Passou, então, a ser protagonizado por Paulo Gracindo e Clara Nunes, transformando-se em um dos maiores sucessos da história do Canecão.

Em 1975, Bibi recebeu o Prêmio Molière pela interpretação da personagem Joana, de "Gota d’água", de Paulo Pontes e Chico Buarque, montagem que ambientava a tragédia "Medeia", de Eurípedes, em um morro carioca.

Amália

No início dos anos 2000, Bibi Ferreira fez mais um trabalho impressionante ao interpretar a fadista Amália Rodrigues (1920-1999) no espetáculo "Bibi vive Amália".

Em seguida, Bibi apresentou dois recitais, "Bibi in concert" e "Bibi in concert pop", nos quais se apresentou acompanhada por orquestra e coral.

Vida reservada

Admirada pelo público e adorada e respeitada pelos colegas, Bibi sempre manteve uma rotina discreta, evitando a exposição de detalhes de sua vida pessoal – raras eram suas aparições em eventos sociais.

Segundo amigos mais próximos, quando estava fora dos palcos, Bibi preferia passar o tempo em seu apartamento no Flamengo. Teve vários casamentos e apenas uma filha, Teresa Cristina.

Afastamento

"Nunca pensei em parar. Essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos a que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada! Bibi."

Com essas palavras, atribuídas a Bibi Ferreira em comunicado publicado em rede social, a atriz e cantora carioca anunciou, em 10 de setembro de 2018, que encerrava uma das carreiras mais gloriosas construídas por uma artista no Brasil e no mundo.

Aos 96 anos, a artista se retirou voluntariamente de cena para preservar a saúde após três sucessivas internações.

De acordo com a nota, Bibi disse que não iria mais se apresentar nos palcos como atriz e/ou cantora. Tampouco daria entrevistas, nem mesmo por e-mail, como vinha fazendo nos últimos tempos.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/rio

domingo, 4 de março de 2018

Morre a atriz Tônia Carrero, aos 95 anos, no Rio


Publicado originalmente no site da revista Veja, em 4 de março de 2018

Morre a atriz Tônia Carrero, aos 95 anos, no Rio

Ela sofreu parada cardíaca em cirurgia para tratar uma úlcera; conheça sua trajetória

Por Rafael Aloi, Daniel Bergamasco

A atriz Tônia Carrero morreu no último sábado, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. A neta Luisa Thiré confirmou a informação à GloboNews.

Ela passava por cirurgia para tratar uma úlcera, quando sofreu parada cardíaca. O procedimento foi realizado em uma clínica particular na Gávea, no Rio de Janeiro.

Desde 1999 ela sofria de hidrocefalia oculta, que consiste no acúmulo de líquido no cérebro, provocando pressão interna. Na época, Tônia se submeteu a uma cirurgia para colocar um dreno debaixo do couro cabeludo e conseguiu continuar a trabalhar. Uma segunda intervenção, nove anos depois, não surtiu o mesmo resultado satisfatório. A doença fez com que a atriz tivesse a fala e os movimentos comprometidos, o que a levou a optar por uma vida reclusa em sua casa, no Jardim Botânico, Rio. Sua última aparição pública foi em 2011, quando prestigiou um espetáculo de seu único filho, o ator Cecil Thiré, de 73 anos. Em outubro de 2016, esteve nove dias internada para tratar uma pneumonia.

Diva

Maria Antonietta Portocarrero Thedim nasceu na capital carioca em 23 de agosto de 1922 e desde a infância vislumbrava um futuro na ribalta, para desespero da mãe recatada e do lar, Zilda de Farias. Já o pai, o marechal Hermenegildo Portocarrero, costumava ser visto na primeira fila da plateia de suas peças.

Aos 17 anos, casou-se com o diretor de cinema Carlos Arthur Thiré, pai de Cecil, que em princípio também se mostrou contrário à ideia de ver a mulher atuando. Tônia formou-se em Educação Física em 1941 e chegou a dar aulas no Vasco, mas ao acompanhar o marido em um período de trabalho em Paris decidiu retomar o antigo sonho. Fez vários cursos e, ao retornar ao Brasil, aos 25 anos, estrelou seu primeiro filme, Querida Suzana, de Alberto Pieralise, que trazia nomes como Anselmo Duarte e Nicette Bruno no elenco.

O desempenho chamou a atenção do cineasta Fernando de Barros, que a convidou para trabalhar em Caminhos do Sul (1949) e Perdida pela Paixão (1950). Depois disso, a convite do empresário Franco Zampari, Tônia entrou para a Companhia Cinematográfica Vera Cruz com status de diva de Hollywood. Nos famosos estúdios de São Bernardo do Campo (SP), Tônia protagonizou Apassionata (1952), Tico-tico no Fubá (1952) e É Proibido Beijar (1954), de Ugo Lombardi.  O longa Chega de Saudade (2008), de Laís Bodanzky, marcou a despedida do cinema e rendeu-lhe o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Cartagena. Ainda em 2008, Tônia foi a homenageada do ano do Prêmio Shell.

Ela subiu aos palcos pela primeira vez em 1949 em Um Deus Dormiu Lá em Casa, pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ao lado de Paulo Autran. A partir daí, participou de várias montagens de textos clássicos como Otelo (1956), de William Shakespeare, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1978), de Edward Albee, e Casa de Bonecas (1971), de Henrik Ibsen. Em 1968, destacou-se ao interpretar a prostituta Neusa Sueli na peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, com direção de Fauzi Arap. Seu espetáculo derradeiro aconteceu em 2007: Um Barco para o Sonho, de Alexei Arbuzov, produzido pelo filho e dirigido pelo neto, Carlos Thiré.

Na TV, teve grande sucesso como a milionária Cristina Melo de Guimarães Cerdeira de Pigmalião 70, novela levada ao ar pela Rede Globo em 1970. O corte de cabelo da personagem conquistou as ruas e ganhou o apelido de “Pigmalião”. Outro papel de destaque foi o da socialite excêntrica e liberada Stella Simpson de Água Viva (1980), na mesma emissora, pelo qual recebeu o prêmio de melhor atriz de televisão da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e Rebeca, em Sassaricando. O ano de 2004 marcou suas últimas aparições na televisão: como Madame Berthe Legrand, em Senhora do Destino, e interpretando ela mesma na minissérie Um Só Coração, atração produzida pela Globo em comemoração aos 450 anos de São Paulo.

Amores intensos

Na vida pessoal, Mariinha, apelido pelo qual a família a chamava, casou-se mais duas vezes: com o ator e diretor italiano Adolfo Celi, que terminou um romance com a atriz Cacilda Becker para ficar com ela, e com o empresário César Thedim, do qual nunca chegou a se divorciar de fato. Enquanto era casada com Celi, Tônia se envolveu com o escritor Rubem Braga, que a amou perdidamente, e com o colega Paulo Autran. Sempre falou sem pudor sobre seus romances – admitiu publicamente um enorme arrependimento por não ter cedido às investidas de Juscelino Kubitschek e Vinicius de Moraes. Esse último, aliás, eternizou a paixão não correspondida na canção Formosa.

Pouco afeita à hipocrisia, Tônia certa vez admitiu a Cacilda Becker – que a ignorou durante 11 anos após a traição de Celi – que sentia inveja dela. Ela também não era chegada à falsa modéstia de fingir que não possuía consciência do quanto era bonita. Tinha, sim, e não escondia o desgosto provocado pelo envelhecimento. Felizmente, para deleite do público que pôde conferir seus trabalhos e acompanhar sua trajetória, soube extrair o melhor possível da rara combinação de talento e beleza. Além de Cecil e de Carlos, Tônia deixou outros três netos e cinco bisnetos.

Texto e imagem reproduzidos do site: veja.abril.com.br

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Atriz Ruth Escobar morre em São Paulo aos 81 anos


Publicado originalmente no site G1 SP., em 05/10/2017 

Atriz Ruth Escobar morre em São Paulo aos 81 anos

Ela sofria de Alzheimer e morreu na tarde desta quinta-feira (5) no Hospital 9 de Julho, na Bela Vista.

Por G1 SP, São Paulo

A atriz e produtora Ruth Escobar morreu na tarde desta quinta-feira (5) aos 81 anos, informou a Associação de Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp). Ela morreu entre 13h30 e 14h, no Hospital 9 de Julho, na Bela Vista.

Maria Ruth dos Santos Escobar nasceu no Porto, em Portugal, em 1936, e se mudou para o Brasil em 1951. Ela foi uma das mais notáveis personalidades do teatro brasileiro, empreendedora de muitos projetos culturais, especialmente comprometidos com a vanguarda artística.

Ruth sofria de Alzheimer e vinha sofrendo com a doença nos últimos anos. O velório começou no fim da tarde desta quinta no teatro que leva o nome dela, que fica na Bela Vista.


A filha de Ruth, a cantora e atriz Pat Escobar, lamentou a morte da mãe em sua página no Facebook. "Partiu! Mãe! Saudades de tudo! O Christian estará aí para te receber! Agora só amor, paz, descanso... saudade!”, dizia a mensagem.

Perfil

Ruth Escobar montou a companhia Novo Teatro, com o diretor Alberto D'Aversa, e protagonizou peças escritas ou dirigidas pelo marido, Carlos Henrique Escobar. Ela foi a estrela de espetáculos como "Antígone América" (1962), "Mãe Coragem e Seus Filhos", de Bertolt Brecht, em 1960, e "Males da Juventude", de Ferdinand Bruckner, em 1961, ambas dirigidas por D'Aversa.

Em 1964, passou a investir mais no teatro popular, transformando ônibus em palcos e levando peças para várias regiões de São Paulo, no projeto Teatro Popular Nacional. Na década de 60, produziu peças como "Júlio Cesar", de William Shakespeare.

Nos anos 70, produziu peças como "Missa Leiga", de Chico de Assis, com direção de Ademar Guerra, em 1972. A montagem causou polêmica por ter sido proibida de utilizar a Igreja da Consolação como palco e acabou sendo encenada em uma fábrica.

Nos anos seguintes, ela se dedicou ao Centro Latino-Americano de Criatividade e ao Festival Internacional de Teatro, em São Paulo. Outra iniciativa de Ruth foi a Feira Brasileira de Opinião, em 1976, com espetáculos dos mais importantes dramaturgos da época. O evento foi "interditado" pela censura.

Em 1977, ela voltou a atuar. Ela interpretou Ilídia de "A Torre de Babel" e trouxe a São Paulo o autor Fernando Arrabal para dirigi-la.

A lista de peças ganha novos capítulos com "Caixa de Cimento", quando foi dirigida por Juan Uviedo, e "Fábrica de Chocolate, peça que ela produziu a partir de texto de Mario Prata sobre a tortura.

Nos anos 80, ela deu uma pausa na carreira e foi eleita duas vezes deputada estadual. Na mesma década, em 1987, lançou o livro "Maria Ruth - Uma Autobiografia". Em 1990, retornou aos palcos, numa encenação de Gabriel Villela, de Relações Perigosas, de Heiner Müller.

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Biografia de Cacilda Becker (1921 - 1969)

Foto reproduzida do site: teatrojornal.com.br 

Biografia de Cacilda Becker (1921 - 1969).

Cacilda Becker foi atriz brasileira. Considerada uma das personalidades mais importantes da classe teatral brasileira e líder da categoria na primeira fase do Regime Militar de 1964.

Cacilda Becker (1921-1969) nasce em Pirassununga, São Paulo, no dia 6 de abril de 1921. Filha de Edmondo Yáconis e Alzira Becker, imigrantes italianos. Quando tinha seis anos de idade, seus pais se separaram e Cacilda e suas irmãs foram criadas apenas pela mãe, na cidade de Santos.

Em 1940, inicia sua carreira no Teatro do Estudante do Brasil. Em 1948, ingressa no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ao ser contratada para a peça "Mulher do Próximo", de Abílio Pereira de Almeida. Em pouco tempo se torna a primeira atriz da companhia. Entre os principais trabalhos dessa fase estão "Seis Personagens à Procura de um Autor", de Luigi Pirandello, e "Antígona", de Sófocles.

No cinema trabalha em "A Luz dos Meus Olhos", em 1947, e "Floradas na Serra", em 1954. Em 1958, funda sua própria companhia, ao lado dos atores Walmor Chagas, seu marido, e Ziembinski. Encena peças como "Longa Jornada Noite Adentro", de Eugene O'Neill, e "A Visita da Velha Senhora", de Durrenmatt.

Em 1968, presidiu a Comissão Estadual de Teatro, em São Paulo. Em 6 de maio de 1969, durante a apresentação de "Esperando Godot", de Samuel Beckett, onde contracenava com Walmor Chagas, sofreu um derrame cerebral, sendo levada para o hospital, permanecendo em coma, faleceu 38 dias depois.

Cacilda Becker Yáconis, faleceu em São Paulo, no dia 14 de junho de 1969.

Texto reproduzido do site: ebiografia.com

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Procópio Ferreira (1898 - 1979)


Publicado originalmente no site do Jornal do Dia, em 22/07/2014.

Procópio Ferreira.
Por Vieira Neto.

João Álvaro Quental Ferreira (08.07.1898/18.06.1979) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia de São Procópio, prenome que adotaria mais tarde na carreira artística. A escola teatral portuguesa, a maneira de inflexionar, a postura cênica herdadas do teatro lusitano, marcaram definitivamente a carreira do ator que gerações de brasileiros aplaudiram como o expoente máximo de sua arte, que não se limitou ao teatro, pois o cinema que começara a ser feito no país seduziu o artista.

Estreia em 1916 na comédia francesa Lang L'ange Du Foyer ("Amigos, Mulher e Marido"), após abandonar a faculdade de direito para fazer teatro e ser expulso de casa pelo pai.
O sucesso de crítica e público chega no início dos anos 1920, com "A Juriti", peça de Viriato Correia e Chiquinha Gonzaga. Em 1924, funda a Companhia Procópio Ferreira, na qual trabalha até meados dos anos 1950, como produtor, diretor e ator principal.

Sua experiência no teatro trouxe larga contribuição ao incipiente cinema brasileiro àquela época, desde o seu aparecimento no filme "Coisas Nossas", uma espécie de revista com uma sucessão de quadros variados dirigidos pelo americano Wallace Downey, em 1931.
Voltaria às telas em 1940, fazendo um chefe de estação ferroviária em "Pureza", filme inteiramente ambientado na Paraíba.
A visita de Orson Welles ao Brasil provocou uma caricatura cinematográfica batizada de "Berlim na Batucada", de 1944, aproveitando-se no título os anos finais da Segunda Guerra Mundial. E Procópio estava no filme.

Famoso pela interpretação de peças de Molière, Procópio é convidado para exibir-se em Paris. É notória sua preferência por autores consagrados, como França Júnior, Martins Penna e José de Alencar, além de peças escritas especialmente para sua Companhia. Como por exemplo, "Deus lhe Pague", de Joracy Camargo, que leva ao palco mais de quatro mil vezes.
O pai da atriz Bibi Ferreira considerava como os seus melhores trabalhos no cinema, os filmes "O Comprador de Fazendas" (1951) e "O Homem dos Papagaios" (1953), onde assinou também o argumento. Voltaria às filmagens em 1965, para fazer "Crônica da Cidade Amada" e, pela última vez, em 1968, no longa "Em Família".

Procópio Ferreira era sempre muito contundente em suas entrevistas e de uma sinceridade impressionante. Não se preocupava em agradar ou desagradar, emitindo opiniões até mesmo polêmicas:
"Não acredito na crítica, ela só serve para os colegas dizerem mal da gente."
"Eu acho que os maus atores vão estar sempre desempregados, os péssimos atores que quiserem empregar-se não vão empregar-se nunca."
"Quando fazia as minhas peças, algumas eu fazia com êxito, e outras não, mas nada disso abalou a minha vida".
"Nunca parei de fazer teatro ou eventualmente, cinema. Sou o maior trabalhador do Brasil".         
(Resumo do capítulo 68 do meu livro inédito, "101 Ícones do Cinema que Nunca Sairão de Cena").

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

sábado, 13 de maio de 2017

Teatro e Psicologia


Teatro e Psicologia. 
De Mariana Crochemore

“Há pelo menos uma diferença entre o teatro e a vida! No teatro temos várias vidas: rei, mendigo, velho, moço, amante, rejeitado (…) É beber ovinho de uma existência inteira na taça frágil de uma hora…” (Domingos Oliveira).

1. INTRODUÇÃO.

O teatro e a psicologia têm muito em comum, ambos tratam do mesmo tema: o comportamento humano. O teatro imita a vida e a psicologia tem na vida o seu objeto de estudo. Em suas articulações vemos a psicologia utilizando o teatro como recurso em suas diversas áreas de atuação, inclusive de maneira sistematizada como no caso do psicodrama, na área clínica.

O trabalho pretende enfocar o teatro enquanto expressão artística e cultural, e, debruçando-se sobre o tema, estabelecer o diálogo entre teatro e psicologia, visando ainda que de forma introdutória, analisar a função deste e esboçar um confronto com os mecanismos do processo de construção de personagem, a partir de constructos teóricos da psicologia.

A primeira parte do trabalho é dedicada a discutir a função do teatro. Percorrendo desde a origem do teatro, procura revelar nesta trajetória idéias e símbolos da mitologia grega, a função catártica, a noção do brincar, o mecanismo da sublimação e algumas contribuições da psicanálise acerca do artista, focalizando a fantasia, a criatividade, e a arte.

A segunda parte trata da questão do ator. São diferentes os caminhos que levam a construção da personagem. A psicologia, como ciência que estuda o comportamento humano, traz em si subsídios esclarecedores para a construção do ator, podendo cada linha teórica contribuir com seus fundamentos para um objetivo específico desse processo. Discorrendo sobre o método de trabalho do ator, enfocarei a questão por um viés junguiano, abrangendo os conceitos de arquétipos e inconsciente coletivo.

2. O TEATRO

“O teatro tem o tamanho da vida. E dentro dele podemos exercer a forma mais interessante de sabedoria, que é a loucura sob controle”. A frase é de Domingos Oliveira (1987), cineasta, ator e diretor teatral. Em suas reflexões sobre o teatro “Do tamanho da vida”, ele expõe:

“Teatro é ensinamento e diversão, disse Brecht. Mas ensinamento sobre o quê? Sobre a experiência transcendental. Transcender é cair no real. O teatro tem como finalidade ajudar o seu espectador a entender-se como indivíduo dentro de um contexto mais amplo. Essa é a experiência transcendental a que me refiro, necessária e deliciosa que talvez o teatro possa proporcionar”.

O teatro é a expressão humana que lhe traduz a própria existência. O teatro pode ser compreendido como um rito através do qual se revela um mito. Segundo Brandão (1991), o rito possui o poder de suscitar ou reafirmar o mito. É através do rito que o homem incorpora o mito, se beneficiando de todas as suas forças e energias que jorraram nas origens.

A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida. O rito reiterando o mito aponta o caminho, oferece um modelo exemplar, colocando o homem na contemporaneidade do sagrado. O autor conceitua o mito como, a narrativa de uma criação, ocorrida nos tempos primordiais quando uma realidade passou a existir. O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente coletiva transmitida através de várias gerações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se.

Ao se fazer essa analogia entre o teatro e um ritual, entre a peça e um mito, percebemos essa contemporaneidade do sagrado, como a tomada de consciência, a elaboração das identificações e a própria catarse emocional pela qual sofre o espectador ao assistir uma peça teatral. O drama, como diz Freud (1904), é a forma de tornar acessíveis fontes de prazer ou satisfação na nossa vida emocional, grande parte das quais é de forma inacessível.

Em seus estudos sobre o processo criativo, Freud (apud. Fine, 1981)2 verifica que, “como muitas vezes o drama se ocupa do sofrimento, o prazer do espectador deriva-se de uma dupla ilusão: primeiro que é o outro e não ele que está representando e sofrendo no palco, depois porque afinal se trata apenas de um jogo que não representa perigo para sua segurança pessoal”. Diz ele que, os conflitos retratados no palco devem estar dentro do âmbito da experiência do espectador, assim haverá um entre jogo entre o autor e a audiência. A arte teria o caráter de prazer antecipado, e nosso prazer com uma obra imaginativa depende de uma liberação de tensões.

O estado no qual entramos ao assistir a uma peça teatral, podemos dizer que se aproxima de um estado de rebaixamento de consciência. Vale à pena a longa citação de Barthes (1975), que traça interessante comparação entre o estado do espectador e um estado pré-hipnótico, uma vez que o estado hipnótico, era a condição introdutória e necessária, na utilização do método catártico para o tratamento psicanalítico em seus primórdios.

“Tudo se passa como se mesmo antes de entrar na sala, as condições clássicas da hipnose lá estivessem reunidas: vazio, receptividade, desocupação. Não é diante da peça e pela peça que se sonha”: é sem saber, antes mesmo de vir a ser espectador. Existe uma situação de teatro e essa situação é préhipnótica. Segundo uma metonímia verdadeira, o escuro da sala é anunciado pelo ‘sonho crepuscular’ que precede este escuro e conduz o sujeito, de rua em rua, de cartaz em cartaz, a mergulhar finalmente num cubo obscuro, anônimo, indiferente, onde deve se produzir este festival de sentimentos”

Um forte atrativo que se faz presente na situação teatral, é a posição de voyer ocupada pelo espectador, Metz (1983) afirma que o exibicionismo é bilateral na materialidade das ações, pois repousa sobre o jogo das identificações cruzadas sobre “o vai e vem assumido do eu e você”. O autor prossegue dizendo haver um empuxo não divisível do desejo de ver que requer dois aspectos: ativo/passivo, sujeito/objeto, ver/ser visto. O exibido sabe que é olhado, deseja que assim seja, identifica-se com o voyer de que é objeto (mais que o constitui como sujeito). Aí se coloca a relação presencial como condição para a efetivação do voyerismo. Ator e espectador estão presentes um no outro.

O exibicionismo e o voyerismo existem enquanto relação de identificação, um depende do outro.

Identificamo-nos instintivamente com os protagonistas criados e reagimos a seus antagonistas como se nós estivéssemos no palco.

Projetamos no cenário, fazemos nossa a mobília, sentimos o diálogo como se fosse saído de nossas próprias bocas, conhecemos a ambivalência de amor e ódio, atingimos idêntico nível de crise e clímax,e apenas na medida em que se dá a resolução dos conflitos, é que vamos gradativamente recobrar-mo-nos como platéia. Identificamo-nos com o seu ego, seu super-ego, e também o seu id.
Cada membro da platéia vai responder como indivíduo e como membro do grupo. Pode-se dizer que o inconsciente do indivíduo reage ao nível de inconsciente da representação, de forma que tanto o público quanto o ator sentem que o fazem juntos. Courtney (1980) salienta que, os espectadores se relacionam em três níveis da experiência teatral: com o enredo, a experiência da ação, e a personagem. Sintetizando também o conteúdo, a intenção, e a coerência da peça. Portanto no teatro a presença do público é um pré-requisito, que participa na criação da forma final da arte. O escritor cria o texto, o ator representa, o diretor reúne as partes, e a platéia reage. Sem a reação do público, a arte como forma é quase inexistente.

Bibliografia:

TEATRO E PSICOLOGIA
de Mariana Crochemore

1 OLIVEIRA, D. Do tamanho da vida – reflexões sobre o teatro. RJ,
INACEN, 1987, p. 12
2 FINE, R. A hitória da Psicanálise. RJ, Livros técnicos e científicos,
1981, p. 209
3 BARTHES, R. En Sortant Du cinéma. In: Communication, n. 23, 1975
4 BRANDÃO, J. Mitologia Grega. Vol. II Petrópolis, Vozes – 4ª Ed.
1981, p. 132
5 WINNICOTT, D. O Brincar e a realidade. RJ. Imago, 1975, p. 80
6 JABLONSKI, B. em “Catarse da agressão” – Dissertação de Mestrado
– PUC/RJ, 1978, pp1-2
7 FINE, R. A história da psicanálise. RJ, Livros técnicos e científicos,
1981, pp212-213
5) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALEXANDER, F. Fundamentos da Psicanálise – RJ, Zahar, 1965.
BARTHES, R. En sortant du cinéma. In: Comumunication n. 23, 1975.
BETTELHEIM, B. Psicanálise dos contos de fadas – RJ, Paz e terra,
1979.
BRANDAO, J. Mitologia Grega – vol. I – Petrópolis, Vozes, 1991.
BRANDAO, J. Mitologia Grega – vol. II – Petrópolis, Vozes, 1991.
COURTNEY, R. Jogo, teatro e pensamento – SP, Perspectiva, 1980.
FADIMAN, J. e FRAGER, R. Teorias da personalidade – SP, Harbra,
1986.
FINE, R. A história da psicanálise – RJ, Livros técnicos e científicos,
1981.
FREUD. S. Os pensadores – SP, Abril cultural, 1978.
JABLONSKI, B. Catarse da agressão – dissertação de mestrado –
PUC/RJ, 1978.
JUNG, C.G. O homem e seus símbolos – RJ, Nova Fronteira, 1964.
METZ, C. História e discurso – nota sobre dois voyerismos. In:
KRISTEVA, J.
MILNER, J. e RUWET, N. (org.) Língua, discurso e sociedade. SP,
Global, 1983.
MEICHES, M. e FERNANDES, S. Sobre o trabalho do ator – SP,
Perspectiva, 1999.
OLIVEIRA, D. Do tamanho da vida – reflexões sobre o teatro – RJ,
INACEN, 1987.
WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade – RJ, Imago, 1975.
WINNICOTT, D.W. A criança e seu mundo – RJ, Zahar, 1975.
Trabalho de Conclusão de Curso realizado em julho de 2002 Orientador: Bernardo Jablonski
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Centro de Teologia e Ciências Humanas
Departamento de Psicologia

Texto reproduzido do blog: andreteatro.blogspot.com.br

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Plínio Marcos de Barros (1935 - 1999)


Plínio Marcos de Barros

Plinio Marcos, dramaturgo brasileiro - 1991.

Juan Esteves.

Nascimento: 29/9/1935 (Brasil, São Paulo, Santos)
Morte: 19/11/1999 (Brasil, São Paulo, São Paulo)
Habilidades: Jornalista, Autor, Ator.

Biografia:

Plínio Marcos de Barros (Santos SP 1935 - São Paulo SP 1999). Autor. Renovador dos padrões dramatúrgicos, através de enfoque quase naturalista que imprime aos diálogos e situações, sempre cortantes e carregados de gírias de personagens oriundas das camadas sociais periféricas, torna o palco, a partir dos anos 1960, uma feroz arena de luta entre indivíduos sob situações de subdesenvolvimento.

Vive até a juventude em Santos, quando ingressa em um circo-teatro, no qual ocupa diversas funções e destaca-se como o palhaço Frajola. Em 1958, é chamado para substituir um ator no grupo amador que Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, e seu marido Geraldo Ferraz mantém na cidade, e conhece autores como Samuel Beckett e Fernando Arrabal.

Desses contatos resulta a primeira encenação amadora de um texto seu, Barrela, em 1959, dirigido por ele próprio, centrado numa curra em uma cela de prisão, o que provoca escândalo na sociedade santista.

Plínio exerce diversas funções, como vendedor de álbuns de figurinhas, camelô, e, no início dos anos 60, técnico da TV Tupi . Em 1966, sob a direção de Benjamin Cattan, ele e Ademir Rocha interpretam Dois Perdidos Numa Noite Suja, no Ponto de Encontro, bar da Galeria Metrópole, em São Paulo, o que marca sua estréia como profissional.

Navalha na Carne, sua obra seguinte, enfrenta graves problemas com a Censura, o que desencadeia mobilização da classe teatral. Leituras no Teatro de Arena e no teatrinho particular de Cacilda Becker e Walmor Chagas reúnem a crítica e artistas, que pressionam pela liberação do texto, permitindo à montagem estrear em 1967. Porém  o pungente desempenho de Ruthinéa de Moraes, vivendo a prostituta explorada pelo proxeneta, só é liberado para maiores de 21 anos. O mesmo papel irá impulsionar a carreira de Tônia Carrero, na montagem carioca sob a direção de Fauzi Arap, em 1968. No ano anterior, Plínio dirige mais um outro texto, Quando as Máquinas Param, no Teatro de Arte, sala pequena do TBC, que chama a atenção para o trabalho de Miriam Mehler. Também em 1967, surge nova criação, Homens de Papel, com Maria Della Costa interpretando a catadora de papel Nhanha, pelo Teatro Popular de Arte - TPA.

Fervoroso defensor dos seus direitos, Plínio envolve-se em agudo debate, transmitido pela TV, com a deputada Conceição da Costa Neves, no qual advoga pela sua liberdade de expressão. Já é um nome nacional e, como articulista do jornal Última Hora, dispõe de uma tribuna para arremeter contra a censura e a ditadura.

Sua vida insubmissa, seus textos desbocados e cheios de fúria, sua teimosia em não aceitar cortes, em não negociar com a Censura, levam à proibição de toda sua obra. Proclama-se um "autor maldito", sempre que tem a oportunidade de fazer pronunciamentos públicos.

Jornada de um Imbecil até o Entendimento, encenada por João das Neves no Grupo Opinião, em 1968, é nova oportunidade para gerar polêmica. Em 1975, um episódio ilustra o clima em que ele sobrevive: a montagem de Abajur Lilás, com direção de Antônio Abujamra, é proibida no ensaio geral, levando a produção à bancarrota e Plínio à condição de autor cuja obra inteira encontra-se interditada. A peça enfoca a vida de três prostitutas exploradas por um cáften homossexual, num clima de mórbida dependência.

Sobrevive como articulista dos raros órgãos de imprensa que o aceitam; só consegue voltar a atuar em 1977, com o musical O Poeta da Vila e Seus Amores, sobre a vida de Noel Rosa, na encenação de Osmar Rodrigues Cruz, que inaugura a nova sala do Teatro Popular do Sesi - TPS. A seguir, uma peça amena: Sob o Signo da Discoteque, de 1979, período menos tenso que marca uma mudança de rumo - Plínio interessa-se pelo estudo de assuntos esotéricos e pela leitura do Tarô.

Dessa nova fase nascem Madame Blavatsky, encenada por Jorge Takla 1985, grande painel sobre a vida da mística autora de A Doutrina Secreta; e Balada de um Palhaço, com direção de Odavlas Petti, 1986, sobre dois palhaços de circo que dividem o picadeiro.

Durante muitos anos Plínio vive das edições e reedições auto-financiadas das suas obras, em exemplares que vende nas filas de teatro e que incluem novelas, contos, peças teatrais e romances. Com freqüência, personagens de crônicas ou contos migram para o texto teatral, como é o caso de Balbina de Iansã, de 1970, nascida de textos jornalísticos, ou Querô, antes vindo à luz na novela Querô, Uma Reportagem Maldita, de 1976.

Sobre o primeiro ciclo da produção pliniana, o crítico Edelcio Mostaço escreve, surpreendido por sua originalidade: "Algozes truculentos e vítimas pisoteadas alternam-se, em cada célula ou lance dos enredos, para escalonarem e desvendarem as intimidades da outra figura; desvendamentos cada vez mais cruéis, pérfidos ou insidiosos, cujos objetivos são levar o outro ao martírio, isolá-lo num cúmulo de solidão e desamparo que, não raro, atinge as raias da condição abjeta. O apogeu destes círculos de opressão que se estreitam é insuflado pelas alternâncias entre as personagens, onde algozes e vítimas intercambiam seus papéis, batalha que só terá fim num confronto armado entre as figuras e do qual sobreviverá o mais apto. A dramaticidade de Plínio não admite soluções de compromisso ou acomodamento de situações, apenas o rompimento dos vínculos, onde apenas a morte ou o aniquilamento de um dos pólos tencionais pode representar a libertação".1

Plínio deixa grande número de obras inéditas, como O Bote da Loba, 1997, além de peças infantis (As Aventuras do Coelho Gabriel, 1965; O Coelho e a Onça, 1988; Assembléia dos Ratos, 1989). É o autor dos roteiros cinematográficos Rainha Diaba, filme de Antônio Carlos Fontoura realizado em 1971, e Nenê Bandalho, filme de Emílio Fontana, de 1970. Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja ganham versões cinematográficas de Braz Chediak, em 1969 e 1970, respectivamente. Em 1997, Neville de Almeida volta a filmar Navalha na Carne e José Jofilly prepara uma nova versão para as telas de Dois Perdidos, ainda em processo de produção. Em 1968, com sua atuação na novela Beto Rockfeller, de Bráulio Pedroso, Plínio alcança projeção nacional como ator. Recebe o Prêmio Molière de melhor autor por Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, nos anos em que são lançadas, além do Golfinho de Ouro como personalidade, em 1971. Casa-se com a atriz Walderez de Barros e é pai do também dramaturgo Léo Lama.

Notas

1. MOSTAÇO, Edelcio. Crônicas de um tempo mau. São Paulo, julho de 2001. (Prefácio inédito).

Texto reproduzidos do site: enciclopedia.itaucultural.org.br

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Morre a crítica teatral Barbara Heliodora, aos 91 anos, no Rio.


Publicado originalmente no site G1 Rio, em 10/04/2015.

Morre a crítica teatral Barbara Heliodora, aos 91 anos, no Rio.

Crítica teatral estava internada no Hospital Samaritano, em Botafogo.
Informação foi confirmada pela casa de saúde na manhã desta sexta (10).

A crítica teatral Barbara Heliodora morreu na manhã desta sexta-feira (10) no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio, onde estava internada desde março. A crítica de teatro tinha 91 anos.
Nascida em 29 de agosto de 1923, filha de uma poetisa, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, e do historiador Marcos Carneiro de Mendonça, a crítica teatral e tradutora Barbara Heliodora se transformou em uma das maiores conhecedoras da obra de William Shakespeare no Brasil.

A paixão pelo escritor inglês começou na infância, aos 12 anos, após ganhar da mãe o primeiro volume das obras completas do dramaturgo. Ela costumava dizer que Shakespeare foi um grande e bom amigo ao longo dos anos.

Barbara estudou e se formou nos anos 1940 em literatura inglesa no Connecticut College, nos Estados Unidos. Aos 35 anos, iniciou a  carreira no jornalismo, no jornal Tribuna da Imprensa, entre outubro de 1957 e fevereiro de 1958.  Na época, amigos do teatro "O Tablado", insistiram para que ela escrevesse sobre o mundo teatral que ela tanto admirava. 

'Dama de Ferro'.

Foi no Jornal do Brasil, onde trabalhou até 1964, que sua carreira conquistou respeito e seriedade pelo conhecido rigor dos seus artigos e críticas. Ela era responsável pela resenha de teatro do jornal. A classe teatral brasileira se referia a ela como a "Dama de Ferro". Nos teatros, gostava sempre de sentar nas primeira fileiras para assistir aos espetáculos.  Em 2013, em entrevista ao programa Starte, da Globonews, ela contou que já tinha visto mais de 3.500 espetáculos teatrais.

Entre 1964 e 1967, em plena ditadura militar, ela assumiu a direção do Serviço Nacional do Teatro. Barbara também deu aulas no Conservatório Nacional de Teatro e no Centro de Letras e Artes da Uni-Rio, onde se aposentou em 1985.

Voltou ao jornalismo em 1985, na revista Visão. Cinco anos depois,  foi convidada trabalhar no  jornal O Globo, onde ficou por mais de 20 anos. Deixou o dia a dia do jornal no final de 2013, ao completar 90 anos. Nesse mesmo ano, disse em entrevista ao programa Starte, da Globonews, que já tinha visto mais de 3.500 espetáculos teatrais. Mesmo sem a rotina de escrever diariamente sobre teatro, Barbara continuou a fazer traduções e participar de mesas de debates sobre Shakespeare, em reuniões semanais em sua casa, no Largo do Boticário.

Barbara também fez direção, adaptação e tradução de diversas obras. Um de seus maiores desafios foi a tradução de mais de 30 peças de Shakespeare para o português. Em entrevista exibida em 2009, na Globonews, ela contou que fez a tradução ao longo de 30 anos. A mãe dela já tinha feito a tradução de "Hamlet" e "Ricardo III".

Ao longo da carreira ela escreveu seis livros.  O primeiro em 1975, a partir da sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) : "A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare".  Em 1997, "Falando de Shakespeare", onde reuniu conferências realizadas ao longo de 15 anos de trabalho.

Em 2000, Barbara escreveu "Martins Pena, uma introdução", a convite da Academia Brasileira de Letras. Em 2004, ela  lançou uma coletânea de ensaios: "Reflexões Shakespearianas".  E na companhia de outros quatro autores, lançou em 2005  "Brasil, Palco e Paixão" - Um século de Teatro", sobre uma parte da história do teatro brasileiro no século XX. O último livro foi "Caminhos do teatro Ocidental", resumo do trabalho como professora de história do teatro, de 1966 a 1985.

Em uma de suas últimas entrevistas disse que pensava sobre a contribuição do teatro. "O teatro é um documentário perfeito da história do ocidente. Você lendo as peças você vai acompanhar o desenvolvimento do ocidente exatamente. Os autores teatrais acabam refletindo exatamente a história toda".

Barbara Heliodora deixa três filhas - de dois casamentos - e quatro netos.

Foto e texto reproduzidos do site: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia